Poema de Bartolomeu Campos de Queirós
Para bem criar passarinhos é bom ter asas na alma, imensa
inveja dos voos e viver leve com as penas. Isso se consegue descobrindo a
alegria de possuir um céu aberto como casa e ter como caminho a distância do
nascente ao crepúsculo, sempre.
Para bem criar passarinho é necessário ter o corpo capaz de
escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços
preso em garganta. Isso se alcança afinando bem os sentidos, para perceber
sopros de flauta, cordas de harpa e murmúrios das perguntas e lembranças.
Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo
ou estrela cadente, é importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o
vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens,
infinito adentro.
Para bem criar Passarinho há que se gostar da noite como um
tempo para dormir aninhado entre as estrelas. Isso se consegue não suspeitando
dos sonhos e fascinar-se com a temporária presença de lua. Ter o escuro como
manto capaz de abrigar o sono e mais uma paciente certeza de um sol depois de
toda madrugada.
Para bem criar passarinho é proveitoso ignorar as grades, as
prisões, as teias. É bom se desfazer das paredes, cercas, muros e soltar-se,
deixar-se vagar entre perfume e brisa. É melhor ainda não dispor de trilhas ou
veredas e ter o ar inteiro como um espaço pequeno para a ligeireza das asas.
Para bem criar passarinho é bom construir uma gaiola, mais
ampla que a terra, de janelas abertas para o universo com seus planetas e
constelações. E, depois, há que vigiar o sabor das frutas maduras nas arvores e
provar do conteúdo das sementes.
Para bem criar passarinho é indispensável apreciar numa
capela sons de sino para travar diálogo com os trinados. É bem preciso ter uma
praça diante da igreja, com fios para os pássaros virgularem as pautas. Assim,
as aves se fazem de música e descansam, sob penas, para renovadas revoadas.
Para bem criar passarinho há que deixá-los soltos para
escolherem e esconderem seus ninhos entre árvores, varandas e telhados. É bom
reparar, sem ansiedade, com distância, as suas pérolas postas em conchas de
gravetos encarando o azul, debaixo de árvores e sombras de renda.
Para bem criar passarinho é conveniente amar as quedas de
cachoeiras, as águas evoluindo nos rios e barulhos de chuva sobre as telhas,
imitando grãos em peneira. Isso se faz possível se houver liberdade para as
buscas, tempo para a solidão e saudades mansas de outros lugares ainda por
conhecer.
Para bem criar passarinho é urgente apenas contentar-se com
o desejo de tê-los na palma da mão. E isso se alcança ao imaginar-se
acariciando as suas penas com cuidados invisíveis e os afagando apenas com o
olhar, sossegadamente.
Para bem criar passarinho é essencial possuir um arco-íris,
ilusão de água e sol, rabiscando no céu para passarinho pousar depois da chuva.
E isso se faz possível, escolhendo nas nuvens as sete cores, ao entardecer.
Para bem criar passarinho é preciso ter ao alcance das mãos
a linha do horizonte para escrever poesia para passarinhos cantarem. E isso de
torna possível soltando o olhar para o bem depois das montanhas, dos mares,
deixando o carinho murmurar rascunho de poema.
Para bem criar passarinho é bom visitar as montanhas para
deixar repousar as penas. E depois de altos passeios, sem deixar marcas de
passagem, descansar entre montes e distância. Por ser assim, contemplar com o
coração o além, onde só as rezas enxergam.
Para bem criar passarinho é obrigatório cultivar jardins,
canteiros, flores e folhagens, para deixá-los por terra, soltos, aos bandos,
ciscando apressados, perseguindo pequenos insetos e suspeitas raízes dormindo
misteriosamente entre cigarras ainda por cantar.
Para bem criar passarinho é correto apreciar as lagoas
esculpidas com o rumor do vento e apreciá-los entre mergulhos e banhos. Para
isso, é bom desconhecer a rosa-dos-rumos e traçar o percurso segundo a
luminosidade das estrelas.
Para bem criar passarinho é necessário prender o universo -
dos mares do firmamento – em uma gaiola respirando azul e infinito por todos os
lados. É seguro declarar que nenhum espaço é demais para os voos. Para bem
criar passarinho é preciso experimentar as asas, sempre.

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